sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Macaco Bong lança o disco “This is Rolê”






O trio Macaco Bong lançou seu novo àlbum This is Rolê na ultima terça-feira, 4 de setembro. Maturidade, diversidade e pressão sonora aparecem como características de “This is Rolê”.

Gravado e produzido na capital mineira - onde o grupo reside atualmente, o disco está disponível para download no novo site da banda: macacobong.com.br e a venda nos pontos de distribuição do Fora do Eixo.


Leia a crítica do disco por Alex Antunes


Um universo criativo muito próprio, que ignora os modismos; uma visão política de mundo; uma opção pela música instrumental. Esse é o tripé em que se assenta, mais do que a estética, o caráter do Macaco Bong.

Segundos álbuns costumam ser uma passagem essencial para a trajetória de uma banda. Porque já não há aquela explosão de repertório e energia acumulados, contra as dificuldades iniciais de produção. Para as bandas que importam, um segundo álbum traz em geral uma segurança maior (quanto ao domínio dos meios técnicos) e ao mesmo tempo um autoquestionamento de identidade: quem se é, como se faz e, provavelmente o mais importante, porque se faz.

Ainda mais se o primeiro álbum foi um sucesso (caso de Artista Igual Pedreiro, melhor disco nacional de 2008 pela Rolling Stone e presente em várias listas), e a pressão por resultados começa a aparecer. Mas desde o primeiro momento essa não era uma banda “normal”: um trio instrumental virtuose de Cuiabá, misturando referências locais ao rock pesado.

É aí que o caráter começa a fazer diferença. Primeiro, por não abrir mão de seu timing. Nesses 4 anos só soltaram um outro registro de estúdio, o EP Verdão Verdinho, de três faixas, no ano passado.



Na verdade, a banda esteve muito ativa no período – coerente com o discurso de que sua prioridade costuma ser, mais do que os registros de estúdio, as apresentações ao vivo. Ou, melhor dizendo, os registros de estúdio são uma espécie de conclusão da depuração pela qual o repertório passa ao vivo, sem concessões para uma visão “estratégica” da carreira.

Isso, e mais a militância do Macaco Bong nos circuitos alternativos, em sintonia com o movimento Fora do Eixo, transformaram a banda numa referência – mas uma referência nada óbvia.

De fato, foram fenomenais as experiências por que o Macaco Bong passou: o show Futurível em colaboração com Gilberto Gil; a gravação de um dvd (ainda inédito) com a participação do pianista erudito Vitor Araújo, do rabequeiro Siba, do percussionista-performer Jack e do naipe de metais dos metais dos Móveis Coloniais de Acajú, show que ainda teve um repeteco com o rapper Emicida.

This Is Role é o primeiro disco da banda depois da nova formação com o baixista mineiro

Com essa expansão de horizontes estéticos, uma mudança na formação – a saída do baixista Ney Hugo e a entrada de Gabriel Murilo –, e a mudança para Belo Horizonte como base de operações (depois da natal Cuiabá e de um período em São Paulo), a curiosidade sobre o segundo álbum foi ficando acirrada. O que viria por aí?

E, ouvindo This Is Rolê, a primeira resposta é... um álbum de rock’n’roll. Não a caricatura misógina em que o rock pesado se transformou nas últimas décadas (ou sua antimatéria flácida, o indie), mas uma adesão à linha que passa pelo hard, pelo thrash, pelo grunge e pelo stoner rock. O que seria um lado A, a primeiras cinco faixas (“Otro”, “O Boi”, “This is Rolê”, “Broken Chocobread”, “Copa dos Patrão”), tem essa qualidade básica e viril. Segundo o guitarrista Kayapy, “a banda esta mais pronta e forte do que nunca” – o que, no caso do Macaco Bong, é muito forte.

Mas sem abdicar da criação de climas intrigantes e abstrações que flertam às vezes com a outra grande linhagem do rock, que passa pela psicodelia, pelo prog e chega ao pós-rock. Soa às vezes como a fase mais urbana e experimental do metal, com bandas como o Helmet ou o Prong.

E é então que, subitamente, nas quatro faixas do que seria o lado B, This Is Rolê se lança em experiências ainda menos ortodoxas. “Mullets”, antes de alcançar suas passagens mais pesadas, começa com uma base tecno, quase chocante no contexto da banda. A eletrônica também está presente em um dos timbres do baixo de “Summer Seeds”, cuja psicodelia tem um quê de música mineira com indie britânico.

Primeira audição pública do disco para convidados em Belo Horizonte no SESC Paladium

“Seu João” tem um clima jazzy, delicado e de horizontes amplos, mais ou menos como a trilha para uma nevasca sobre a Chapada dos Guimarães, com o piano e o órgão Hammond de Túlio Mourão (da formação progressiva dos Mutantes). E em “Dedo de Zombie” Túlio volta quebrando tudo ao piano num rock dramático e intenso, mais ou menos como Keith Tippett fazia no King Crimson no início dos anos 70.

Em This Is Rolê o Macaco Bong resolveu se jogar simultaneamente em duas frentes estéticas – e agora é esperar para ver como esses elementos serão refundidos nos próximos trabalhos. Segundo o batera Ynaiã, “o primeiro álbum foi a ‘primeira transa’ de jovens cabaços, mas agora nesse já sabemos o que queremos, e quais sonoridades vamos buscar”.

Gabriel, que além da destreza como instrumentista tem uma percepção aguda do que o Macaco Bong já representou até aqui, diz que “para uma banda que tem um primeiro disco esteticamente inovador e com uma ideologia provocante e subversiva, o This is Rolê é mais uma camada de acabamento. Ele é a ocupação dessas plataformas moldadas com sons, e com práticas políticas em disputa de espaço. Esse é o rolê, as tecnologias da solidariedade e das diferentes dimensões estéticas”.

É interessante que, com esse seu olhar para dentro de seu universo pessoal, e para o ambiente político da produção musical, o Macaco Bong acabe se relacionando e recontando tanto da história do rock. Muito mais do que as bandas que se pretendem “artísticas” (como se o termo fosse uma antítese de política) e “antenadas”. O Macaco Bong simplesmente redescobriu como enxergar o meme “rock” de dentro pra fora, e tirar um novo e bom caldo disso.

Alex Antunes é crítico musical, têm publicações na Rolling Stone, Folha Ilustrada, Veja e Pasquin, é um dos fundadores da revista Bizz e participou do movimento punk dos anos 80.

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