O Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza abrirá no
próximo dia 29 (terça-feira), às 18 horas, a exposição coletiva "Rito
Resigno", com os artistas Ana Cristina Mendes (CE), Aslan Cabral (PE),
Grupo Empreza (GO), Rubiane Maia (ES), Melissa Garcia (México) e Regina
José Galindo (Guatemala), com curadoria de Ana Cecília Soares e Júnior
Pimenta.
A abertura contará com a performance "A flor da pele.
Para La Fontaine", da artista Rubiane Maia. Com entrada franca, a mostra
ficará em cartaz até 29 de junho próximo (horários de visitação:
terça-feira a sábado, de 10h às 20h; e aos domingos, de 12h às 18h).
Texto curatorial (por Ana Cecília Soares e Júnior Pimenta)Na
história da humanidade encontramos um recorrente auxílio à esfera
religiosa (mágica) para tudo aquilo que a desorientava ou fugia de seu
controle. Nas culturas mais antigas tudo era vivido num plano duplo onde
coexistia a realidade e o mundo indizível. Não havia um só campo da
vida do homem que não tivesse relação com o sagrado. Na arte não seria
diferente, o artista enquanto ser simbólico servia de meio à
transcendência do espírito.
Atualmente, mesmo, com o
abrandamento da manifestação religiosa no pensamento ocidental,
observa-se a emergência de sintomas capazes de exprimir na produção
artística permanências do sentimento sagrado. Para a pesquisadora Maria
Amélia Bulhões, este fenômeno pode ser identificado na recorrência aos
temas do catolicismo e dos mitos africanos e indígenas, estabelecendo
uma ponte das tradições do passado com as experiências do
presente.
A
inserção de posturas e procedimentos ritualísticos na produção
contemporânea é expressiva. Promovendo uma relação espiritualizada do
artista e do público com a arte, e desta maneira uma vivência específica
com o sagrado. Os objetos ou as performances podem adquirir o mesmo
teor místico de um ritual religioso ou mágico desde que se estabeleça
entre seus participantes uma espécie de pacto de crença, e que estes
entrem num sistema simbólico partilhado e comum a todos os
presentes.
A
exposição Rito resigno abrange um conjunto de trabalhos que realiza
esse diálogo entre o sagrado e as poéticas artísticas nos tempos de
hoje. Os seis artistas participantes trazem a temática à tona de maneira
bem peculiar, conduzindo e incitando no espectador diferentes questões.
"Abraço
líquido" (2007/2008), videoperformance de Ana Cristina Mendes (CE), faz
referência aos rituais na água praticados pelas mulheres celtas na
fonte de Bònegre no Sul da França (hoje seca). A artista aproxima essa
realidade com as das lavadeiras cearenses, com ênfase na ideia de um
ritual de passagem, em que ambas trocam com a água suas energias, seu
suor, suas forças e com isso se renovam.
"Antropofagia"
(2005), videoperformance do Grupo Empreza (GO), a partir da simulação de
um artista "comendo" o cabelo de outro, o trabalho faz referência ao
ritual antropofágico praticado por algumas tribos indígenas no Brasil.
Esse tipo de prática servia, dentre outros motivos, para reverenciar os
espíritos dos antepassados e vingar os membros da aldeia mortos em
combate. Após as batalhas contra tribos inimigas, a antropofagia tinha
caráter apoteótico, mobilizando todos os membros da aldeia numa sucessão
de danças e encenações que terminavam com a matança de prisioneiros e o
devoramento de seus corpos. Assim, acreditavam que ao comer a carne de
um inimigo guerreiro, iriam adquirir seus conhecimentos e suas
qualidades.
"Perra"
(2005), videoperformance de Regina José Galindo (Guatemala). Nesta obra
a artista escreve a palavra "perra" (cachorra em português), com uma
faca sobre sua perna. Embora, realize uma denúncia aos abusos cometidos
contra as mulheres na Guatemala, onde têm aparecido vários corpos
femininos torturados e com inscrições feitas com faca ou navalha. A
artista se vale de uma cerimônia ritualística em que a importância do
sacrifício jaz no fato de que ela sacraliza o ato social e o novo
relacionamento que este produziu. Por meio da ação sacrificial, Galindo é
levada à catarse, convocando em si e no outro uma descarga de sentidos e
emoções.
Outro trabalho de Galindo é "Autocanibalismo" (2001).
Uma videoperformance, onde ela executa o ato de comer parte de sua
carne, apropriando-se de um ato corriqueiro para muitas pessoas, que é o
de roer as unhas. Este autodevoramento apresenta em sua origem traços
ritualísticos, uma espécie de antropofagia de si mesmo.
"A flor
da pele. Para la Fontaine" (2011), é a fusão de duas performances de
Rubiane Maia (ES). O trabalho faz alusão ao sacrífico, um dos pilares
das práticas ritualísticas; que se serve como ferramenta de "iluminação"
capaz de transcender o corpo, levando o indivíduo para outro estágio da
consciência.
"Intra Melissa (en cinco partes)" (2009),
fotoperformance de Melissa Garcia (México), trata de uma investigação
sobre a dor e autoconhecimento. Inicialmente, ela promove a retirada do
seu próprio sangue, traçando as seguintes etapas: extração, contatos
tátil, olfativo, degustativo e reabsorção do sangue. Um ciclo sanguíneo
externo. Como nos antigos rituais, ao transcender o próprio
funcionamento do corpo e a dor através da representação trágica de sua
performance, é como se a artista atingisse a um plano sublime,
conquistando, dessa forma, sua própria recompensa.
"Goodbye
World" (2006), videoperformance de Aslan Cabral (PE). Nesse trabalho,
ele simulou sua própria morte, ao tomar um coquetel de medicamentos. O
artista ficou 6 horas inconsciente. Ele passou por todas as etapas de um
ritual fúnebre: da lavagem de seu corpo até ser colocado dentro de um
caixão. O artista vivencia uma espécie de morte simbólica, o que lhe
permite um mergulho em si. Uma experiência que ressoa na sua maneira de
pensar e sentir o mundo, como uma ritualística para a libertação.
Rito
resigno promove um recorte de algumas das nuances oriundas das
interseções entre as práticas ritualísticas e as poéticas
contemporâneas. Refletindo questões enraizadas no imaginário mágico e
religioso do próprio ser humano. Como pontua o pesquisador Mircea
Eliade, no livro "O sagrado e o profano": o homem é "um ser sagrado por
natureza".